Entrevista de Sueli Tercete Matos
ao Portal RH (www.rh.com.br)
A grande competitividade do mercado está
fazendo com que as organizações invistam, cada
vez mais, no potencial criativo dos seus colaboradores. Embora
ainda exista quem apresente resistência a esta realidade,
a oferta de programas que estimulam as equipes ganha mais
destaque. Dentro desse universo, existem aspectos que podem
inibir e até desmotivar a criatividade dos profissionais
como a presença de líderes centralizadores que
podam o desempenho dos subordinados e consideram o verbo errar
como sendo proibido ou então, sinônimo de punição.
Para falar sobre a criatividade nas organizações
e como esta pode ser trabalhada e estimulada no dia-a-dia,
o RH.COM. BR conversou a consultora e professora de Recursos
Humanos, Sueli Tercete Matos (foto).
RH.COM.BR – O que pode ser entendido como
criatividade para uma organização?
Sueli Tercete Matos – Antes de mais nada, é preciso
que levemos em consideração o tipo de negócio
da organização. Algumas empresas permitem e
até exigem um maior grau de criatividade, onde inovar,
inventar, discernir ou descobrir são essenciais e fazem
parte de sua vocação. Outras organizações
precisam se ater a mais normas e padrões, deixando
um espaço menor para criar. De qualquer forma, ver
uma determinada situação sob outro ângulo,
fazer diferente, reestruturas idéias, abandonar padrões
rígidos podem ser consideradas características
de comportamento criativo.
RH – Qual a postura que uma empresa pode
adotar para desenvolver a criatividade de sua equipe?
STM – Criatividade é uma capacidade humana de
gerar soluções ou novas alternativas engenhosas,
logo é uma habilidade passível de ser aprendida,
desenvolvida e aperfeiçoada. Se pode ser ensinada,
deve ser gerenciada. Cada um de nós é líder
em algo. Precisamos apenas identificar no que somos bons.
Peter Drucker já dizia: “ descubra sua eficiência
e busque sua excelência”. A organização
deve explorar aspecto em que cada um é líder,
para que o colaborador possa contribuir com o que tem de melhor.
RH – Quais as ferramentas mais usadas para
se estimular a criatividade?
STM – Não sei se podemos chamar de ferramentas,
mas certamente é preciso que haja um ambiente propício
para estimular a criatividade dos colaboradores. Um ambiente
propício não só para gestação
e surgimento de idéias, mas também para seleção
e implementação delas. Dessa forma, a equipe
pode sentir-se motivada para criar. Também é
preciso que haja um incômodo ou problema para que se
use a criatividade na busca de uma solução,
como também é fundamental que existam uma liderança
que apóie e uma cultura organizacional que admita erros.
Outra alternativa, seria o investimento em treinamentos das
mais diversificadas natureza e temas, como forma de incentivar
talentos já existentes e estimular o surgimento de
novos.
RH – Quais seriam os principais inimigos
da criatividade?
STM – Os opostos dos estimuladores da criatividade são
seus inimigos. Por exemplo: muitas empresas querem colaboradores
criativos, mas têm líderes conservadores, castradores,
centralizadores, vaidosos que certamente impedirão
a criação e o fazer diferente. Outras organizações
também dizem aceitar erros, mas não é
essa a realidade aplicada na hora das avaliações.
A ameaça à segurança e ao status, um
clima de competição acirrada, o desprezo à
fantasia, o medo de que as idéias sejam roubadas, o
caminho arriscado de canais organizacionais, todos estes e
outros valores semelhantes que perpassam as organizações,
na maioria das vezes de maneira não explícita,
inibem a criatividade.
RH – E quando a rotina entra em cena, o
que a empresa pode fazer para que ela não atrapalhe
o potencial criativo dos funcionários?
STM – Resguardadas as características do negócio,
a rotina deve ser evitada ao máximo. É importante
gerar um tempo, um espaço para o raciocínio
criativo. Dois fatores são fundamentais para que se
crie: um problema e uma mente alerta e disponível.
O dia-a-dia exige muito, nos deixando muito ocupados, com
pouco tempo para contemplação, meditação
o que, sem dúvida, é fundamental para gerar
o novo.
RH – A Sra. comentou que as lideranças
exercem papel fundamental na criatividade das equipes. O que
um líder pode fazer para explorar o potencial de seus
colaboradores?
STM – Muito se fala sobre o empowerment, compartilhamento
de poder, mas pouco se pratica. O líder tem que instituir
a confiança, o respeito e a admiração.
Ele tem que autorizar a liberdade para que as pessoas tentem
e também possam errar. Isso não pode ser só
discursivo, tem que haver coerência com a prática.
Também é fundamental que o líder organize
grupos multidisciplinares, isto é com formação
e experiências diversificadas pois, em se falando de
criatividade, o mais importante são os tipos de associações
e combinações que se faz com os conhecimentos
que se possui. E é isto que trará novas abordagens.
RH – E o profissional de RH, como este
pode identificar e avaliar um profissional criativo?
STM – Durante a condução de entrevistas
e aplicação de testes, um profissional de RH
experiente não terá dificuldades de identificar
uma pessoa criativa. Com relação à avaliação,
não basta apenas ser criativo e não há
quem seja criativo durante todo o tempo. É fundamental
que haja uma boa dose de bom senso e experiência para
propor soluções criativas apenas quando a situação
assim o permitir. Confesso que não gostaria que o piloto
de um avião, que estivesse conduzindo o vôo que
estou ou mesmo, o cirurgião que estivesse operando-me
fossem muito criativos em seus procedimentos. |