No auge de minha carreira profissional,
após dois cursos de pós-graduação
e de ter investido muitos homens-horas no desenvolvimento
de um Modelo Sistêmico de Recursos Humanos Integrado,
meu grande sonho era ter a oportunidade de vê-lo implantado
para aplicar a teoria na prática. O destino estava
a meu favor, todas as forças do universo conspiraram
e não é que esta oportunidade surgiu?
Após criterioso processo de seleção,
fui escolhida para gerenciar uma área de Recursos Humanos
Corporativa, resultante da união de três empresas
que, durante 50 anos funcionaram separadamente. O desafio
era grande, mas à vontade de acertar e a confiança
de que estava tecnicamente preparada eram maiores. Aceitei
e passei longos quatro anos nessa empresa.
As chefias das três áreas de Recursos
Humanos que se uniriam e ficariam sob minha gerência
foram bastante receptivas e se mostravam ávidas por
um Recursos Humanos de ponta, estratégico, atuante
e respeitado. Diziam ver em mim, a esperança de realizar
este sonho.Alguém vindo de fora, sem o corporativismo
de nenhuma das três casas, sem contaminações,
vícios cultural...seria enfim a grande chance, tão
ansiada por todos.
Empenhei-me em conhecer as equipes, o funcionamento
das áreas, os procedimentos e ferramentas utilizadas.
Solicitei ao Diretor, que havia me contratado que não
me nomeasse até que definíssemos a abrangência
e atuação que queríamos para o novo departamento
de Recursos Humanos. Mania de perfeição ...talvez.
Mil idéias, recheadas de otimismo e entusiasmo,
nos motivavam a unir também a área de Qualidade
e ações de Endomarketing.
Por força do destino, neste meio tempo,
o Diretor, que compartilhava e apoiava minhas idéias,
foi rebaixado a outra posição. Isto fez com
que todos os planos fossem por água abaixo. Só
para que tenham uma idéia, passamos em oito meses por
cinco diretorias, entre elas um Diretor Financeiro englobando
Recursos Humanos, o que gerou uma imensa instabilidade com
relação à área e ao meu cargo.
Para cada um que assumia, era necessário todo um esforço
de vendas da área e das medidas necessárias
à sua modernização, no sentido de convencer-lhes
a aceitar a idéia de me manter na atividade e de efetivarmos
o Recursos Humanos Estratégico tão sonhado.
Afinal, para ingressar nesta jornada, eu havia deixado uma
empresa com vinte anos de casa, me transferido de Florianópolis,
uma cidade linda e pacata e, trazido comigo marido e quatro
filhos, apostando apenas na realização e crescimento
profissional.
Apesar de todos os contratempos, conseguimos
durante essas transições implantar um Plano
de Cargos e Salários único e quase concluímos
um programa de Avaliação de Competências
com envolvimento total de todos os gestores e empregados.
Os trabalhos iam de vento em popa quando, por motivos meramente
políticos, o primeiro homem de uma das casas exigiu
que a gerência da área de Recursos Humanos fosse
ocupada por alguém de sua empresa. E, de repente me
vi subordinada de quem iria ser gerente. Essa pessoa, com
quase 30 anos de casa, prestes a se aposentar, viu em mim
uma ameaça e, desde o primeiro instante, não
mediu esforços para me tirar de seu caminho.
Assumi a Divisão de Desenvolvimento de
Pessoal que englobava as áreas de Treinamento &
Desenvolvimento e Remuneração. Sofri, o altualmente
tão debatido e criticado assédio profissional,
de todas as formas que conhecemos. Minhas ações
eram boicotadas, minha equipe recebia comandos que eu desconhecia
ou simplesmente diversos daqueles que eu havia transmitido.
Vivíamos todos em clima de terrorismo. As pessoas se
sentiam inseguras, desconfiadas, divididas – não
sabiam a que senhor servir. Experimentei toda sorte de grosseria
e ataques. Enfim, um verdadeiro inferno organizacional.
Por possuir uma característica forte de
determinação e perseverança, passei todo
o tempo acreditando que conseguiria, conquistá-la e
a toda a equipe através do meu potencial profissional.
O desafio de poder contribuir, mesmo assim, com o crescimento
da área de Recursos Humanos, com a melhor qualidade
de vida dos empregados e o sucesso das organizações,
me davam forças para suportar tamanhos maus tratos,
apesar de algumas somatizações refletidas em
minha saúde física.
A gota d’água afinal aconteceu quando,
como Gerente da área de T&D, solicitei que autorizassem
minha participação no Congresso da ASTD –
American Society of Training and Development. Embora tenha
deixado claro que as despesas ficariam por minha conta, fui
obrigada a requerer, por escrito, dispensa dos dias á
minha diretoria. Esta prática jamais havia sido exigida
para os demais empregados.
A semana, que fiquei fora, foi suficiente para
que a arquitetura de minha derrubada, que já vinha
sendo planejada a um certo tempo, tivesse seus últimos
retoques. Quando retornei do Congresso, cheia de novas idéias
e ávida por implantá-las, fui chamada pela Diretora,
que sempre se mostrou companheira e apoiadora de minhas idéias.
Ela confessou ter sido vencida pelo cansaço. Havia
muito tempo que resistia aos inúmeros apelos de minha
chefe para me demitir e confessou não se sentir hábil
em reverter este quadro. Lamentou não ter contribuído
para a concretização dos projetos que eu havia
proposto e finalizou a conversa dizendo simplesmente que:
“ entre a águia e a galinha eles optaram em ficar
com a galinha”.
Bem, depois deste episódio, não
resisti em ler o livro do Leonardo Boff com este título,
para me certificar de que eu tinha entendido bem. Era difícil
aceitar , estar sendo dispensada por excesso de competência.
Seria muita presunção de minha parte, porém
começou-me a chamar a atenção inúmeros
artigos que relatam experiências semelhantes e concluí
que não fui a primeira e nem a última a ser
vítima do ciúme e inveja organizacionais. Não
é sem motivo que esses têm sido temas de alguns
livros de autores consagrados no ramo.
Hoje, fora do envolvimento, posso olhar com neutralidade
para os fatos e escrever este texto com mais facilidade de
interpretação. Feliz e realizada na carreira
de consultoria pela qual optei, e tendo tido a oportunidade
de vivenciar mais algumas experiências enriquecedoras,
entendo o que ocorreu com mais clareza.
Aprendi, que é preciso dosar a capacidade
técnica com a postura política, sempre muito
atenta e com grande respeito à cultura organizacional.
Dancar conforme a música. Perceber as sutilezas do
ambiente. Como disse Lulu Santos: “este mundo de hipocrisia
que insiste em nos rodear” . Percebo o quanto fui ingênua
e concluo que o mundo corporativo não perdoa tamanho
purismo.
Enriquecida pela vasta experiência e gratificação
que o mundo da consultoria proporciona, sem precisar lidar
com tantas fogueiras de vaidades e brigas por “caixinhas
hierárquicas”, agradeço à Deus
de coração, a escolha da galinha. |