No meio de minha trajetória
de recepcionista a secretária bilíngue, bem
no início de minha carreira, passei pela nobre função
de Operadora de Telex. Ainda bem que aprendi muitas outras
coisas, senão hoje, com sua extinção,
seria mais uma a engrossar a fila de desempregados.
A empresa era pequena, representava, aqui no
Brasil, matriz nos States. Éramos vinte empregados
num andar da Rua México – Centro do Rio de Janeiro.
O telex era fundamental, pois todas as ações
tinham que ser analisadas, discutidas e aprovadas na sede.
Para que se tenha uma idéia, através dele, eram
repassadas toda a Folha de Pagamento e a Contabilidade da
empresa.
Passava o dia inteiro reclusa numa sala, onde
minhas únicas companhias eram três máquinas
de telex. Numa delas eu editava os textos, a outra só
recebia e a terceira só enviava. Um barulho ensurdecedor,
um ambiente extremamente quente, já que recebia todo
o sol da tarde, com duas copiadoras ao lado, e uma grande
monotonia, na medida em que dominava as técnicas com
mais facilidade.
Exatamente por já me considerar uma “expert”
no assunto, achei que podia ousar. Certo dia, eu preparava
um texto e produzia uma fita perfurada (ela continha a mensagem
a ser enviada) quando a saída da fita travou. Convencida
do meu pleno conhecimento a respeito, resolvi avaliar o problema
técnico e abri a tampa transparente que isolava o mecanismo
da máquina. Entre outros componentes, havia um cilindro
que permanecia rodando o todo o tempo enquanto a máquina
funcionava, e tinha uma espessa camada de graxa de proteção.
Fui inclinando a cabeça para ver melhor o que está
impossibilitando o funcionamento e precisei inclinar-me um
pouco mais. A essas alturas, entretida com a busca da solução
para o problema, não percebi que meus longos cabelos
tombaram dentro da máquina e foram pegos pelo cilindro.
Ao primeiro puxão cedi, o que possibilitou um repuxe
maior, pois a área escorregadia havia sido protegida
pelo cabelo e aconteceu uma segunda volta. Meu anjo da guarda
estava a postos e consegui, com agilidade, acionar o botão
que desligava o aparelho, mas a essas alturas, eu estava presa,
com a lateral do meu rosto pressionada junto à parte
frontal da máquina.
Rapidamente, os colegas apareceram e providenciaram
a chamada dos técnicos para sanar o problema. Enquanto
isto eu aguardava aflita, numa posição extremamente
incômoda e dolorida, sem saber como iriam me tirar dali.
Quando os técnicos chegaram, mesmo com
muita dor, eu só pedia que não me cortassem
os cabelos pois a sensação que eu tinha é
que ficaria só com uma lateral, ou melhor um tufo de
cabelos na esquerda. A vaidade falava mais alto e eu pedia
e implorava que não cortassem e uma colega tentando
me acalmar, assegurava que eles não fariam, enquanto
eu percebi que, pelo ação da tesoura, não
havia outra solução.
O susto foi grande e permaneceu ecoando em minha
cabeça por um bom tempo. Fiquei alguns meses com o
couro cabeludo dolorido, e após um novo corte de cabelo,
passei a reparti-lo de outro lado para amenizar a aparência,
que por sinal, não ficou tão ruim.
Durante um bom tempo, é claro que fui
motivo de chacota da turma, não só pelo episódio,
mas também devido aos inúmeros xingamentos dos
técnicos pelo trabalho de livrar a máquina dos
fios de cabelo.
Hoje, como executiva da área de Recursos
Humanos, reconheço e valorizo as ações
de Segurança do Trabalho e apregôo a importância
de seguir seus preceitos, desde as situações
mais simples até, principalmente as mais complexas,
respeitando os técnicos e as técnicas em cada
uma de suas especialidades. |