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Tudo dependia só de mim. A experiência de três anos atrás, que me fez derramar algumas lágrimas, foi preponderante neste momento.

Velho ditado - Saber não ocupa lugar.

Hoje, atuando como consultora e professora, costumo usar com freqüência esta estória como exemplo aos meus alunos, não só confirmando o velho ditado de que “saber não ocupa lugar”, como também para lembrar o quanto é importante que se valorize cada função, cada tarefa, por mais simples que possa parecer.

Aos 18 anos, meu primeiro emprego foi conseguido, após árduas batalhas junto às agências de emprego (naquele tempo era assim que funcionava) e depois de ter concordado, em diminuir minha expectativa do cargo de Secretária, para Recepcionista/Datilógrafa.

Bem, este era o título que constava na carteira, mas no dia-a-dia as tarefas que me foram atribuídas mais pareciam as de uma auxiliar de serviços gerais. Minha “chefa” cuidava de tudo um pouco e eu ficava grande parte do tempo tirando cópias de imensos mapas (a empresa era de Prospecção e Geologia) que depois tinham que ser cuidadosamente colados e montados. Eventualmente organizava e mantinha o almoxarifado de materiais de escritório e substituía a recepcionista na hora do almoço.

A nobre função de datilografar já havia me causado sérias dores de cabeça, na medida que, nos cursos de datilografia (com direito a teclado escondido por uma caixinha de madeira) eu não tinha tido a felicidade de ser apresentada ao papel carbono. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar com a árdua tarefa de apagar um erro em 5 cópias. Após inúmeras tentativas em vão, era desanimador encontrar nas cópias um quadrado branco, resultante de eu ter esquecido de retirar os papéis lembretes que me haviam me auxiliado a proteger uma cópia enquanto apagava a outra.

Bem, mas o que eu quero falar mesmo é da minha ampla experiência em “tirar cópias”. Muitas vezes, me recordo, chorei em cima do original, enquanto esperava as cópias, absorta em meus pensamentos. Sempre imaginei que conseguiria, já no meu primeiro emprego, uma posição nobre e respeitada. Meu passado de estudante era recheado de glórias, apesar de nenhuma experiência – não entendia nem porque o mercado fazia tanta questão disto – construí, a meu ver, um currículo louvável. Fui primeira aluna de turma toda a minha vida, tinha seis anos de inglês, com direito a um diploma de Cambridge, terminara o “clássico” com notas acima da média e fui a única aluna do curso de secretariado, com nove meses de duração e dez matérias, a passar na prova de taquigrafia com 60 palavras por minuto (ah, quantas vezes taquigrafei o Jornal Nacional para me exercitar!). Ledo engano.

Fiquei pouco tempo nesta empresa. Depois dela, em três anos, quintupliquei meu salário, chegando também à quinta empresa, uma multinacional de reconhecida fama no mercado.

Nessa época ocupava o cargo de Secretária Executiva Bilíngue, cursava Letras na UERJ – Português/Alemão, e acreditava ter chegado ao auge de minha carreira. O cargo de secretária envolvia um grau de responsabilidade considerável e seu papel exigia um conhecimento amplo de atividades, já que , naquele tempo, não se dispunha de um décimo de toda a tecnologia atual. Não podia se contar, por exemplo, com ferramentas como Word e Excel para padronizar nossas correspondências e formatar tabelas. Cabia-nos também cuidar do orçamento de gastos da área, enviar telex, bem como encadernar as apresentações. Eu gostava do que fazia, da empresa onde estava, sentia-me reconhecida e respeitada, atuava na área financeira que se reportava a Controladoria e prestava contas à matriz em Boston.

Tudo ia muito bem até que um dia, passadas algumas horas do expediente normal, só eu, a equipe do Planejamento Financeiro e o chefe do meu chefe estávamos lá, terminando um relatório que precisava estar em Boston na manhã seguinte. Na portaria do prédio, uma kombi aguardava para levá-lo ao aeroporto.

O trabalho estava praticamente encadernado quando resolveram alterar alguns números e com isto, algumas folhas precisavam ser substituídas. A essas alturas, o rapaz que cuidava das cópias já havia ido embora e coube a mim tal tarefa. Até aí, tudo bem a não ser pelo fato de que, na hora de tirar as cópias, algumas folhas ficaram presas no cilindro e a máquina parou.

Fiquei desesperada num primeiro momento. Lá fora, cerca de dez pessoas me esperavam para que déssemos a missão por concluída. Tudo dependia só de mim. A experiência de três anos atrás, que me fez derramar algumas lágrimas, foi preponderante neste momento. Consertei o problema e consegui as cópias de que precisávamos, com qualidade ímpar.

Ao ver a kombi partir com o trabalho rumo a Boston agradeci a Deus a oportunidade que tivera e, a partir deste episódio, aprendi a valorizar cada pequena tarefa, cada saber, por mais humildes que pareçam.

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